Descobre aqui todos os contos, desabafos e poemas da personagem 4, encarnação da criança no Tempo do escritor português ALA.
Nasceu para viver, amou, sofreu e sobreviveu, mas nunca mais voltou a ser igual.
- O Alvorar
Ela nasce — literalmente e simbolicamente. Acorda para a vida como quem chega a um mundo novo, com os olhos abertos e o corpo desperto. Ainda não ama, ainda não sofre. Só quer viver, sentir, explorar. Há fome de mundo, de prazer, de toque, de descoberta. É pura possibilidade — sem passado, sem peso. A existência começa no desejo de existir. - Porque o homem também ama e a mulher também deseja
E é então que o encontra. E com ele vem não só a experiência carnal, mas a revelação do amor. Até ali, ela desejava; agora, também ama. Não é submissão, nem perda de si. É construção de uma ligação onde os dois se reconhecem — no toque, nas palavras, no afeto. É a primeira grande comunhão com o outro, onde o desejo e o amor se entrelaçam como dois ramos da mesma árvore. - É normal odiar depois do fim
Mas tudo o que nasce pode morrer. Quando o amor termina, é como se uma parte dela fosse arrancada. Ela, que só tinha conhecido o mundo através dessa ligação, vê-se subitamente sem chão. O ódio surge como disfarce da dor, como tentativa de proteger o que resta de si. É um grito de perda, não de raiva verdadeira. Uma defesa contra o vazio. - A Chuva
Com o tempo, o ódio dissipa-se. Fica uma calma triste, molhada de memórias. Ela já não quer voltar atrás. Já não sente a mesma raiva. Mas também já não é quem era em “O Alvorar”. Aquela ânsia de viver, aquela fome inocente de tudo — evaporaram-se com o sofrimento. A paz chegou, mas trouxe nostalgia consigo. Vive, mas sem o mesmo brilho. Lembra-se dele e do que foram, não com desejo, mas com uma ternura ferida.
