Descobre aqui todos os contos, desabafos e poemas da personagem 2, encarnação da criança no Tempo do escritor português ALA
Como dizia Lavoisier, na vida nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A habilidade de sonhar não desaparece. Mesmo quando encaramos certos sonhos passados e os julgamos como infantis, apenas portadores de eventual mágoa e desilusão, devemos perceber que, um dia, olharemos para os sonhos daquele preciso momento em que criticamos outros e pensaremos o quão errados estávamos.
O mundo dos sonhos é cíclico, começa infantil, atinge uma certa maturidade em que se disfarça de objetivos, para depois voltar ao sonho inocente, mas bonito, dando origem a um novo ciclo, noutra pessoa.
Ainda bem que assim é, porque, como dizia António Gedeão, “o sonho comanda a vida”.
- “O mito criado, a lenda desmistificada”
Tudo começou com a fantasia de um coração inocente.
O amor era um mito — algo maior do que a vida, maior do que ele.
Era um sonho vestido de princesa, um destino escrito em páginas de um conto que ele próprio criou.
Mas os mitos, quando confrontados com a realidade, desfazem-se.
E a lenda, um dia, foi desmistificada. - “Doce e pura inocência“
O menino cresceu com o peito cheio de amor.
Romântico por natureza, acreditava que o amor bastava.
Acreditava no toque tímido, no primeiro beijo, na troca de olhares.
Não sabia ainda que o amor, às vezes, fere mais do que salva.
Mas amou — com a entrega cega de quem nunca sofreu. - “Mudei por ti, perdi-me a mim“
Veio alguém. Diferente. Intensa. Exigente.
Ele quis ser suficiente — e foi mudando.
Cedeu tanto que já não se reconhecia ao espelho.
E no fim, não a tinha a ela. Nem a si.
Perdeu-se em nome de um amor que não o amava como ele era. - “Criei“
A história deles, ele criou.
As palavras, os gestos, os momentos — tudo idealizado.
Ela nunca pediu.
Mas ele construiu. Um castelo sobre areia.
E foi esse castelo que ruiu. - “Sonhei que era amor“
Talvez nunca tenha sido.
Talvez fosse apenas o sonho de alguém que queria muito acreditar.
Amou a ideia, o reflexo, o eco — não a pessoa.
E quando acordou, doeu.
Mas era preciso acordar. - “Um conto de encantar“
Ele não desistiu.
Carregando feridas e lições, seguiu com esperança — mais madura, mais real.
E encontrou alguém.
Não era um mito. Não era uma lenda. Era alguém que o aceitava.
Não o salvou — mas caminhou com ele.
E nesse conto imperfeito, ele descobriu o amor mais verdadeiro de todos. - “Aquele dia“
Um dia, segurou uma mão pequenina.
Olhou para olhos que ainda não sabiam o que era o mundo.
E naquele instante, entendeu tudo.
Tudo o que viveu, tudo o que perdeu, tudo o que aprendeu — era para chegar ali.
O amor, afinal, não era o que imaginou em criança.
Mas era ainda mais bonito. - “O mito criado, a lenda desmistificada” (retorno)
E então, sorriu.
Recordou o mito, a lenda, o sonho.
E compreendeu: não era mentira. Era só o começo.
Hoje, já homem, já pai, entende que o amor não precisa de ser lenda para ser eterno.
Basta que seja real.
