Descobre aqui todos os contos, desabafos e poemas da personagem 1, encarnação da criança no Tempo do escritor português ALA.
Esta personagem deixou-se enlevar pelo mundo dos sonhos e ambições prometidas, caindo na desilusão e dor de um sonho perdido e da dureza da vida. Eventualmente, perdeu a coragem, deixou-se contaminar pelo medo até aparecer alguém que o ajudou a ultrapassar parcialmente aquilo que viveu, para depois a perder.
A vida é mesmo assim. Às vezes nem tudo vai ser ultrapassado. Vais apenas aprender a lidar e viver com as tuas mágoas e traumas.
- O jovem que foi para a guerra e a sombra regressada
Era jovem, crente, sedento de glória. Queria ser herói — não por vaidade, mas por fome de significado. Via no combate a possibilidade de se transcender.
Não sabia ainda que algumas batalhas não deixam troféus, apenas fantasmas. - O medo
Na guerra aprendeu a sobreviver. E sobreviver exigia medo. O medo tornou-se bússola, abrigo, disciplina.
Mas depois da guerra, o medo ficou.
Instalou-se na alma como um velho cão fiel, ensinando-o a não amar, a não confiar, a não desejar demasiado. - Nuvem passageira
Tentou aceitar o que tinha feito, o que se tornara. Lutava com a sua sombra, com a culpa, com a vergonha e com a mágoa.
A nuvem era pesada — mas aos poucos, moveu-se.
Percebeu que talvez nunca se perdoasse, mas podia aprender a existir com aquilo. E isso já era algo.
Percebeu também que talvez um dia se pudesse aceitar. Mas ainda não. - Alma trespassada
Ainda assim, não se aventurava.
Via os outros viverem, amarem, perderem.
Mas ele?
Ficava à margem, com a alma aberta e sangrante, sem coragem de a mostrar a ninguém. - Observando o efémero esplendor
Assistia à beleza da vida como quem espreita um sonho por detrás de um vidro.
Era tudo belo, mas não era dele.
Não ousava tocar, com medo de que tudo lhe fugisse como sempre fugira. - A mulher de branco
Viu-a.
Tão real e serena que quase parecia um delírio.
Ela não o invadiu, apenas esteve.
E ele, mesmo cheio de medo, quase acreditou.
Mas já se habituara ao medo da rejeição. Adaptara-se a viver como quem observa de longe.
Por isso, não se atreveu. - O homem que cortou a barba
Um dia, cansado de si, cortou a barba.
Cortou o medo, as desculpas, os muros.
Deixou-se ver, finalmente.
E ela viu-o.
E amou-o, não apesar de tudo — mas com tudo.
Curou-se? Não.
Mas foi feliz. Por momentos. E isso bastou.
Quando ela partiu, não voltou a ser o mesmo,
mas também já não era quem fora.
As dores antigas permaneceram —
mas havia nelas agora alguma ternura, algum sentido. - Carreguei os fardos do mundo
E por fim, aceitou.
Não o que perdeu — mas quem foi, o que viveu, e o que ficou.
E reconheceu que, mesmo marcado pela guerra, também foi amado assim.
Aceitou-se. E foi aceite.
Sim, carreguei os fardos do mundo. E sobrevivi a todos eles.
