Descobre aqui todos os contos, desabafos e poemas da personagem 8, encarnação da criança no Tempo do escritor português ALA.
O ciclo da vida é feito de chegadas e partidas, de afetos que florescem e se esvaem, e de nós – os que permanecemos – a tentar dar sentido a cada presença que se foi. Nesta encarnação íntima, o autor cruza quatro vozes, todas pertencentes a ele, momentos que viveu e que estão descritos na primeira pessoa, sem qualquer romantização – a revolta, o reconhecimento tardio, a busca de si próprio e a homenagem às raízes – para falar da efemeridade da vida e do luto que fica em quem sobrevive.
- “O quanto te odiei”Tudo começa com a dor crua do primeiro adeus, o do tio que me ensinou a andar de bicicleta. Quando ele partiu sem aviso, senti‑lhe o sorriso arrancado do peito e, por um instante, odiei‑o por me ter deixado órfão de tanta memória viva. Esta fúria foi a primeira manifestação do luto: odiei o silêncio que se fez na casa, odiei não ter tido tempo de guardar o último abraço, e odiei a urgência impiedosa que o levou antes de eu estar pronto.
- “Foste tudo sem saberes que o eras”
Logo a seguir, a perda da avó materna trouxe culpa misturada com admiração tardia. Só depois de ela partir é que compreendi o quão “tudo” ela havia sido: quem acordava a família com o cheiro do pão quente, quem bordava memórias em lençóis brancos, quem tinha nas mãos a cura de todas as pequenas mágoas. A grandeza dela estava na simplicidade dos gestos – e só a partir da sua ausência se revelou o alcance do seu amor. - “Quis saber quem sou”
No leito de morte do avô paterno, já em coma mas ainda presente no quarto, escrevi estas linhas. Era o seu último dia, e este texto foi o meu gesto de reparação — a forma de devolver-lhe o reconhecimento que ainda lhe devia e, ao mesmo tempo, compensar o amor que só soube dar tarde demais à avó. A cada palavra, fundi o legado dele com as memórias dela, procurando em mim a síntese dessa herança: paciência, ternura e resiliência. - “Na tua terra foste tudo sem saber que o eras”
Finalmente, regresso ao lugar de raízes — a aldeia onde avô e avó viveram — para homenagear essa constelação familiar. Cada pedra no caminho lembra‑me quem foram e o que me deram sem cobrar. Eles moram no meu coração como guardiães silenciosos: aceito o destino que os chamou, mas sinto uma saudade profunda e eterna, desejando por um instante tê‑los de volta, mesmo que apenas em sonho.
